Probióticos podem ser benéficos para pessoas com ansiedade, sugere estudo brasileiro

Probióticos são classificados como microrganismos vivos (bactérias e leveduras) benéficos à saúde ao fornecerem equilíbrio e qualidade à microbiota intestinal / Foto: Reprodução/Freepik

Não é por acaso que o intestino tem o apelido de ser nosso “segundo cérebro”. Ele abriga mais de 100 milhões de células nervosas e é responsável por grande parte da serotonina no corpo – um tipo de neurotransmissor associado ao bem-estar. O eixo conhecido intestino-cérebro tem papel crucial na regulação do humor e das funções cognitivas, de forma que cada vez cientistas se interessam na conexão entre esses dois órgãos vitais.

Um estudo feito por pesquisadores brasileiros mostrou que probióticos específicos podem, além de restaurar o equilíbrio da microbiota intestinal, trazer benefícios neuroquímicos a pessoas com ansiedade que usam antidepressivos. Divulgada esta semana e publicada em julho na revista científica Pharmaceuticals, a pesquisa utilizou um simulador do microbioma intestinal humano para explorar o potencial dos probióticos como aliados na manutenção da saúde.

“Intestino e cérebro estão em diálogo constante. Essa comunicação acontece por meio do chamado eixo microbiota-intestino-cérebro, um sistema de via dupla que envolve nervos, hormônios e substâncias químicas produzidas pelas bactérias intestinais”, declara Katia Sivieri, cientista da Unesp e uma das principais autoras do estudo, em comunicado.

Ela explica que os trilhões de microrganismos que vivem no intestino são importantes para processos como digestão e defesa do organismo. Quando há um desequilíbrio na microbiota intestinal (disbiose), alterações metabólicas e inflamações, que causam efeitos tanto na saúde física quanto na mental, podem surgir.

Explorando a microbiota

Alimentação pobre em fibras, privação de sono, estresse crônico, sedentarismo e uso frequente de antibióticos, anti-inflamatórios ou antidepressivos são algumas das muitas causas para uma disbiose ocorrer. Pensando nisso, os pesquisadores buscaram analisar componentes probióticos que poderiam beneficiar o equilíbrio microbiano, reduzindo inflamações e favorecendo um metabolismo saudável.

O estudo realizou seus testes no SHIME® (Simulator of the Human Intestinal Microbial Ecosystem), um tipo de modelo de alta qualidade que simula com precisão o ambiente intestinal, realizando artificialmente processos que vão “desde a passagem pelo estômago até as diferentes regiões do intestino grosso, controlando fatores como pH, temperatura e tempo de trânsito”.

O SHIME® é um método artificial de grande qualidade para testar ambientes da microbiota. Ele não utiliza testes em animais e é importante para desenvolver tratamentos e entender doenças como obesidade — Foto: Divulgação/© ProDigest 2018
O SHIME é um método artificial de grande qualidade para testar ambientes da microbiota / Foto: Divulgação

Para as análises, foram utilizadas as fezes de quatro adultos que tinham ansiedade e usavam antidepressivos da classe ISRS (Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina) há mais de um ano.

Após o período de estabilização dos sistemas, iniciou-se uma intervenção de 14 dias de suplementação com as cepas Lactobacillus helveticus R0052 e Bifidobacterium longum R0175, bactérias conhecidas por suas propriedades probióticas.

Os resultados foram positivos: a combinação das cepas aumentou a presença de bactérias benéficas, reduziu inflamações, fortaleceu a barreira intestinal e melhorou o ambiente metabólico do cólon. Todos esses são fatores favoráveis para o equilíbrio da microbiota, que estão associados à manutenção geral da saúde, incluindo aspectos mentais.

Mesmo com as descobertas promissoras, os pesquisadores ressaltam que validações por ensaios clínicos ainda são necessárias. Além disso, vale destacar, nenhuma suplementação probiótica substitui o tratamento médico: o uso de suplementos atua somente como um complemento para lidar com alterações intestinais. A ampliação dos resultados do estudo incluirá futuros testes clínicos randomizados, duplo cegos e placebos controlados de longa duração.

Revista Galileu

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