
Ao longo de quase dois séculos, os Estados Unidos desempenharam um papel central e frequentemente controverso na história política e econômica da América Latina. Sob diferentes justificativas, que vão da defesa hemisférica à suposta luta contra o comunismo, passando pela proteção de interesses privados, Washington promoveu intervenções militares diretas, golpes de Estado e operações secretas em países da região.
Conheça, a seguir, seis episódios emblemáticos que ajudam a compreender como se consolidou essa prática intervencionista e quais foram as suas principais consequências.
1. As “guerras da banana” (1898–1934)
As primeiras grandes intervenções sistemáticas dos Estados Unidos na América Latina ocorreram no início do século 20, sob a Doutrina Monroe (1823) e, sobretudo, de seu corolário formulado pelo presidente Theodore Roosevelt em 1904. A partir daí, Washington passou a reivindicar explicitamente o direito de intervir em países latino-americanos para “manter a ordem” e proteger seus interesses estratégicos e econômicos.
Esse período ficou conhecido como “guerras da banana”, e foi marcado por uma série de ocupações e ações militares realizadas principalmente pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA em países como Honduras, Nicarágua, Haiti, República Dominicana, Panamá e Cuba. Grandes empresas norte-americanas, como a United Fruit Company e a Standard Fruit Company, dominavam a produção e exportação de bananas e influenciavam diretamente as decisões políticas locais.
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Tal presença militar era, muitas vezes, um instrumento de coerção para garantir estabilidade favorável aos negócios. A ocupação da Nicarágua, iniciada em 1912, ilustra esse padrão: os EUA estabeleceram um protetorado para impedir a construção de um canal interoceânico que ameaçasse a hegemonia norte-americana sobre a Zona do Canal do Panamá.
O ciclo só começou a se encerrar com a “política de boa vizinhança” de Franklin D. Roosevelt, que levou à retirada das tropas do Haiti nos anos 1930.
2. Golpe na Guatemala e o laboratório da CIA (1954)
Com o início da Guerra Fria, as intervenções ganharam um novo discurso legitimador: o combate ao comunismo. Em 1954, a Guatemala tornou-se palco do primeiro golpe de Estado articulado diretamente pela Agência Central de Inteligência (CIA) na América Latina, aponta o site Vatican News.
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O presidente Jacobo Árbenz Guzmán, eleito democraticamente em 1951, promoveu uma reforma agrária que afetava diretamente os interesses da United Fruit Company, proprietária de mais da metade das terras cultiváveis do país. Sob o pretexto de que o governo guatemalteco representava uma ameaça comunista — embora não houvesse envolvimento direto da União Soviética —, os EUA lançaram a operação secreta PBSUCCESS.
Mercenários treinados e financiados pela CIA, liderados por Carlos Castillo Armas, invadiram o país a partir de Honduras. Bombardeios psicológicos e militares forçaram a renúncia de Árbenz em junho de 1954. Como destaca a BBC, o golpe inaugurou décadas de instabilidade e uma guerra civil que deixaria mais de 200 mil mortos e desaparecidos. O próprio papel da CIA só foi oficialmente reconhecido décadas depois.
3. A Baía dos Porcos e o fiasco em Cuba (1961)
A Revolução Cubana de 1959, que levou Fidel Castro ao poder, acendeu o alerta máximo em Washington. Temendo a consolidação de um aliado da União Soviética no Caribe, o governo dos EUA herdou e executou um plano concebido ainda na gestão Eisenhower, que envolvia treinar exilados cubanos para derrubar Castro.
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Em abril de 1961, já sob a presidência de John F. Kennedy, cerca de 1.400 integrantes da Brigada 2506 desembarcaram na Baía dos Porcos, em uma operação que pretendia parecer uma revolta interna. O plano, no entanto, falhou em praticamente todas as frentes. Sem apoio popular, a força aérea cubana não foi neutralizada e o envolvimento dos EUA rapidamente veio à tona, documenta a JFK Library.
Menos de três dias depois, a invasão foi derrotada. Mais de cem exilados morreram e cerca de 1.200 foram capturados. O episódio não apenas fortaleceu Castro internamente, como aproximou ainda mais Cuba da União Soviética, abrindo caminho para a Crise dos Mísseis de 1962.
4. O medo de “outra Cuba” no Brasil e na República Dominicana (1964–1965)
No início dos anos 1960, a política externa dos EUA passou a mirar não apenas governos declaradamente socialistas, mas também experiências reformistas consideradas instáveis. No Brasil, a crescente polarização política e o discurso nacional-desenvolvimentista do presidente João Goulart foram vistos com desconfiança por Washington. Em 1964, os EUA apoiaram logisticamente e diplomaticamente o golpe militar que depôs Goulart, inaugurando uma ditadura que duraria 21 anos.
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No ano seguinte, a preocupação com a possibilidade de uma guinada à esquerda levou a uma intervenção ainda mais direta na República Dominicana. Após a deposição do presidente eleito Juan Bosch, tropas norte-americanas desembarcaram no país na operação Power Pack, com o argumento de impedir a formação de uma “segunda Cuba” no Caribe. A ocupação garantiu a derrota das forças constitucionalistas e a instalação de um governo alinhado aos interesses dos EUA.
5. Interferência eleitoral e golpe contra Allende no Chile (1970–1973)
O caso chileno é um dos exemplos mais documentados e emblemáticos da ingerência norte-americana na América Latina. A eleição de Salvador Allende em 1970 — à frente da coalizão Unidade Popular — representou a primeira tentativa de construção de um governo socialista por meio das urnas no continente.
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Desde a década de 1950, a CIA atuava para minar a ascensão de Allende, financiando campanhas opositoras, veículos de imprensa e operações de propaganda. Após sua vitória, os EUA intensificaram a estratégia de desestabilização, combinando isolamento diplomático, bloqueios econômicos e apoio às Forças Armadas chilenas. Como sintetizou o presidente Richard Nixon, era preciso “fazer a economia chilena gritar”.
Em 11 de setembro de 1973, um golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet, com apoio direto e indireto dos EUA, derrubou Allende, que morreu durante o ataque ao Palácio de La Moneda. Seguiu-se uma ditadura de 17 anos marcada por repressão sistemática, mais de 3.500 mortos e desaparecidos e dezenas de milhares de torturados, segundo o Observatório Político dos Estados Unidos (OPEU).
6. Granada e o fim da Guerra Fria no Caribe (1983)
Em outubro de 1983, os Estados Unidos voltaram a intervir militarmente no Caribe, desta vez na pequena ilha de Granada. O governo socialista de Maurice Bishop, alinhado a Cuba e à União Soviética, já incomodava Washington. A situação se agravou quando Bishop foi deposto e assassinado por uma facção radical de seu próprio governo.
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Sob a presidência de Ronald Reagan, as tropas dos EUA invadiram Granada na operação Urgent Fury, alegando a necessidade de proteger cerca de mil cidadãos dos EUA que viviam na ilha, muitos deles estudantes de Medicina. A ação ignorou advertências do Reino Unido e foi condenada pela ONU como violação do direito internacional, lembra o jornal O Globo.
Apesar de erros militares e bombardeios de alvos civis, a invasão foi rápida e bem-sucedida do ponto de vista estratégico. Internamente, Reagan obteve amplo apoio popular, e o episódio consolidou a percepção de que os EUA estavam dispostos a agir unilateralmente para conter regimes considerados hostis, mesmo no crepúsculo da Guerra Fria.
Revista Galileu
