
A dor aparece, persiste e incomoda, mas os exames não apontam nenhuma alteração. A cabeça lateja, as costas permanecem rígidas, a garganta arde e o estômago reclama. Após inúmeras consultas médicas, a resposta costuma ser a mesma: está tudo normal. Situações como essas são cada vez mais frequentes nos consultórios e revelam um fator muitas vezes negligenciado, a influência direta das emoções sobre o corpo.
Segundo o psiquiatra Eduardo Araújo, especialista em saúde da mente humana, dores sem causa orgânica definida podem ser a forma encontrada pelo organismo para expressar emoções reprimidas, estresse prolongado, ansiedade ou tristeza profunda. Para ele, quando sentimentos não são reconhecidos ou elaborados, acabam encontrando uma via de escape física.
O médico explica que a sobrecarga emocional interfere no equilíbrio hormonal e afeta sistemas essenciais do organismo, como o imunológico, o digestivo e o cardiovascular. Raiva contida, ansiedade ignorada e cansaço extremo normalizado ao longo do tempo desregulam o funcionamento do corpo. Nesse contexto, muitas dores físicas podem ser entendidas como memórias emocionais que não receberam o devido cuidado.
Janeiro Branco e a urgência do cuidado emocional

A conexão entre mente e corpo ganha ainda mais visibilidade em janeiro, mês da campanha Janeiro Branco, dedicada à conscientização sobre a importância da saúde mental. Os dados reforçam a dimensão do problema. Informações da Organização Mundial da Saúde apontam que o Brasil lidera o ranking mundial de transtornos de ansiedade, com cerca de 10 por cento da população afetada. Um relatório internacional de 2024 sobre saúde mental ainda coloca o país na quarta posição entre os mais estressados do mundo.
Para o psiquiatra, esse cenário é resultado direto do estilo de vida contemporâneo. A rotina marcada por autocobrança constante, necessidade de alta produtividade e a pressão por aparentar equilíbrio emocional se soma a fatores como sedentarismo, alimentação rica em açúcar e gordura, uso excessivo de redes sociais e consumo abusivo de substâncias. O corpo, segundo ele, acaba pagando essa conta.
Emoções que costumam se transformar em dor
Algumas emoções aparecem com frequência associadas a sintomas físicos recorrentes. A ansiedade pode provocar aceleração dos batimentos cardíacos, respiração curta, enxaquecas e dores no peito. A raiva reprimida tende a se manifestar como tensão nos ombros, rigidez na mandíbula e dores cervicais. Já a tristeza profunda costuma estar ligada à fadiga constante, sensação de peso no corpo e falta de energia.
Eduardo Araújo ressalta que nem toda dor tem origem psicológica, mas toda dor precisa ser escutada. Quando não há explicação clínica clara, é fundamental observar o contexto emocional do paciente e compreender o que aquele corpo tenta comunicar.
Cuidar da mente para aliviar o corpo
De acordo com o especialista, o primeiro passo é reconhecer os sinais e buscar ajuda profissional. Dar nome ao que se sente ajuda a interromper o ciclo da dor. Práticas como investir em autoconhecimento, estabelecer limites na rotina pessoal e profissional, cuidar do sono, da alimentação e do descanso, falar sobre sentimentos sem minimizar o sofrimento e manter a prática regular de atividade física são aliadas importantes no cuidado emocional.
Para o psiquiatra, cuidar da saúde mental não é luxo, mas uma necessidade. Em muitos casos, as dores físicas diminuem à medida que a pessoa aprende a escutar, respeitar e acolher os próprios limites emocionais.
