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Ponte Bioceânica avança, mas estradas revelam a dificuldade de acesso

Uma das estradas de acesso até a ponte no lado paraguaio / Foto: Osmar Veiga

Para quem tenta chegar até a ponte da Rota Bioceânica, o desafio está nas estradas que levam ao empreendimento. Durante visita ao local, a equipe do Campo Grande News percorreu os dois lados da fronteira e encontrou realidades bastante diferentes. Enquanto o acesso pelo Brasil é mais simples, no Paraguai o caminho ainda depende de longos trechos de terra e enfrenta dificuldades, principalmente em períodos de chuva.

Quem parte de Porto Murtinho rumo ao lado paraguaio segue o percurso tradicional, que leva entre 45 minutos e uma hora. O trajeto começa com a travessia de balsa, que custa R$ 150 por veículo. Após desembarcar em Carmelo Peralta, há aproximadamente um quilômetro de asfalto pela rodovia PY15, o único trecho pavimentado do caminho.

Em seguida, a paisagem muda completamente. Após passar por uma pequena área comercial, onde há um mirante com vista para a ponte, a estrada dá lugar ao chão batido. O cenário é dominado pelo bioma Chaco, uma extensa planície de vegetação adaptada ao clima seco, marcada por arbustos, árvores retorcidas e solo claro, semelhante a uma lama seca. Em dias de chuva, o trecho praticamente fica intransitável para veículos comuns, sendo recomendado apenas o uso de caminhonetes. Existe projeto para pavimentação, mas as obras ainda não foram concluídas.

Outro ponto curioso: o mapa leva o condutor a passar pela colônia menonita (comunidades fundadas por cristãos) instalada na região. A comunidade reúne propriedades ocupadas por estrangeiros e tem fama de isolamento e rígida privacidade. Cercas limitam o acesso, fazendo com que o motorista siga por outra rota.

Nesse local a construção da ponte alterou a rotina da região. A estrutura passa sobre a área da comunidade, como um grande viaduto suspenso, cruzando propriedades que, até então, viviam praticamente isoladas do restante da fronteira.

No retorno ao Brasil, a diferença é perceptível. A travessia é feita por uma balsa disponibilizada pelo governo, com duração de cerca de cinco minutos. Depois, são aproximadamente 35 quilômetros de estrada de chão, pela região conhecida como Bocaiuval.

Apesar de ainda não ser pavimentada, a via vem recebendo melhorias, como serviços de terraplanagem e encascalhamento para reduzir os atoleiros durante o período chuvoso. A estrada também faz parte dos planos de expansão do município, que pretende urbanizar a ligação com a BR-267, cerca de três quilômetros da área urbana de Porto Murtinho, e transformá-la em um dos principais acessos à ponte internacional.

Mesmo em chão batido, o percurso brasileiro é considerado mais acessível. A estrada é mais conhecida pelos moradores, possui melhores condições de tráfego e corta uma paisagem marcada por coqueiros e vegetação típica da região.

O acesso definitivo ainda depende de novas obras. Hoje, a ponte praticamente termina no vazio. Está prevista a construção de uma nova rodovia e de um microanel viário que fará a ligação da estrutura com a malha rodoviária brasileira. Do lado paraguaio, a conclusão das vias de acesso também é considerada fundamental para o funcionamento pleno do corredor bioceânico.

 Finalização da Ponte – Enquanto isso, os trabalhos na própria ponte entram na reta final. Segundo o superintendente de Obras do Consórcio Binacional PYBRA, o engenheiro civil René Gómez, a etapa mais simbólica da construção já foi concluída, a união definitiva entre os dois lados da estrutura, chamada pela equipe de ‘o beijo da ponte’.

De acordo com ele, os últimos serviços envolvem ajustes na tensão dos tirantes, levantamentos topográficos e acabamentos, como instalação de calçadas, guarda-corpos, barreiras de proteção, ciclovia, pavimentação e iluminação ornamental.

A reportagem entrou em contato com o Governo de Estado questionando sobre o cronograma das rodovias de acesso, quais são os prazos para pavimentação e como será a ligação definitiva até a ponte, além de perguntar sobre o alinhamento entre Brasil e Paraguai para a conclusão dos dois trechos, mas até a publicação desta matéria não houve retorno.

Corredor – A construção da Ponte Bioceânica é uma das obras fundamentais para viabilizar o Corredor Bioceânico, também chamado de RILA (Rota de Integração Latino-Americana) ou Corredor Rodoviário de Capricórnio.

A rota terá mais de 3,2 mil quilômetros, conectando os oceanos Atlântico e Pacífico por meio de Brasil, Paraguai, Argentina e Chile.

Porto Murtinho será a porta de entrada da rota no Brasil. A expectativa dos quatro países é transformar o corredor em uma grande via de escoamento de produtos e circulação de mercadorias entre a América do Sul e os mercados asiáticos, com potencial de reduzir em até 30% os custos logísticos e em até 15 dias o tempo de transporte em relação às rotas marítimas tradicionais, como a do Canal do Panamá.

Inez Nazira e Kamila  Alcântara, de Porto Murtinho  / Campo Grande News

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