Mudanças climáticas podem fortalecer pragas de plantações, diz análise

Grilo se alimentando de folha de couve. Cenário de alta das temperaturas pode amplificar presença de insetos-praga pelo mundo — Foto: Wikimedia Commons

À medida que as temperaturas do planeta sobem, cresce também o risco de destruição das plantações por insetos considerados pragas, o que resulta em uma possível ameaça à alimentação global. É o que concluiu uma análise publicada na revista Nature.

Hoje, estima-se que as perdas de plantações por pestes e doenças englobem 40% da produção agrícola anual. Diante de uma elevação de temperatura de 2ºC, as perdas nas plantações globais de trigo podem chegar a 46%; na de arroz, 19% ; e na de milho, 31%. Os números aparecem no artigo, o publicado em abril de 2025, que sistematizou as evidências e os estudos sobre o assunto.

Insetos-praga costumam se adaptar bem a alterações no ambiente em razão de sua evolução ter acompanhado os sistemas agrícolas humanos. Esses invertebrados também contam com alta capacidade reprodutiva e de dispersão, bem como tolerância aos pesticidas.

O professor Pedro Fontão, do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), explica que, ao alterar as condições do ambiente, as mudanças climáticas podem prejudicar alguns animais, mas “outras espécies podem encontrar outros lugares para sobreviver com essas mudanças climáticas e até expandir sua área de ocorrência”.

O calor acelera o desenvolvimento e expande a distribuição geográfica, bem como a estação do ano de atuação das pestes. As temperaturas mais altas também reduzem a resistência das plantações às pragas.

Nas zonas tropicais, pestes podem sofrer com as mudanças climáticas, à medida que essas áreas esquentam ainda mais, ultrapassando a temperatura ideal para esses insetos. Já as pragas nas zonas temperadas podem ser mais beneficiadas com o aquecimento global.

Isso não significa, porém, que os cultivos das regiões tropicais e subtropicais não estejam vulneráveis às pragas. O desmatamento e a expansão de plantações ampliam a disponibilidade de habitat e alimentos para esses animais. A redução da biodiversidade com o desmatamento também diminui o número dos predadores naturais das pragas.

Entretanto, ondas de calor podem ser desfavoráveis às pestes em comparação com o aquecimento de longo prazo, ressalta a análise, por acontecerem de forma intensa e surgirem em um período de dias a horas.

A água também pode favorecer as pestes e sua reprodução, seja por meio da irrigação ou da chuva, já que elas tendem a gostar de umidade. O metabolismo rápido e a baixa capacidade de armazenamento tornam insetos vulneráveis a secas, que reduzem as taxas de fecundidade e a sobrevivência dos ovos.

Essas condições podem resultar, por outro lado, em perdas para a plantação, ao incentivar que as pragas usem os cultivos como fonte de água.

Como a produção de arroz costuma acontecer em latitudes baixas, as pragas dos arrozais estão mais sensíveis à elevação de temperatura e, por isso, tendem a ser impactadas de forma negativa com o aquecimento global. Já as temperaturas moderadas, bem como a irrigação favorecem o plantio de trigo, o que torna essa cultura mais suscetível às pragas.

As evidências agrupadas pelo trabalho demonstram como a alimentação global está em risco e põem sob o holofote a necessidade de adaptação às mudanças climáticas. Essa deve ser a “bola da vez”, diz o professor Fontão. A adaptação foi ponto de destaque da COP30 com a pressão para que países apresentassem os Planos Nacionais de Adaptação (NAPs).

Fontão destaca que cada região precisará lidar com o manejo de pragas de maneira diferente, o que inclui pesquisas agrícolas e ecológicas capazes de melhorar a gestão de risco e o manejo das pragas.

“Pode ser que, o ambiente em que o agricultor não está acostumado com determinada ocorrência de pragas, com as mudanças no padrão climático, aquelas pragas consigam chegar até aquela região. E aí ele vai ter que lidar com um novo desafio”, acrescenta.

Revista Galileu

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