Como o mercado ilegal de canetas emagrecedoras abastece Mato Grosso do Sul

Foto: Divulgação PMMS

O aumento das apreensões, seja por parte da PRF (Polícia Rodoviária Federal) ou da PF (Polícia Federal), nas rodovias de Mato Grosso do Sul, ao longo do segundo semestre de 2025 e já no início deste ano, fez com que as instituições até criassem uma nova classificação em suas tabelas. Onde antes havia somente a captura de “medicamento humano” passa agora a ter um item específico: canetas emagrecedoras. As que escapam, têm destino certo, de forma totalmente ilegal, do Paraguai para geladeira.

A fama das canetinhas, aliada à proibição de vendas no Brasil (‘Campeãs’ de contrabando do Paraguai, canetas emagrecedoras são proibidas pela Anvisa), foram o “boom” certo para contrabandistas. Assim, recorreram ao mercado clandestino e, agora, são rotineiras as volumosas apreensões e investigações de contrabando. Quando passam pela fiscalização, viram produtos ofertados via redes sociais, grupos de WhatsApp e marketplaces e o cliente corre o risco de ingerir um produto falsificado, vencido ou armazenado de forma inadequada.

Sendo assim, o Jornal Midiamax buscou mais detalhes sobre a febre do momento, a qual já supera flagrantes de apreensões de cigarros e iPhones, entre outros produtos. Conforme a PF e a PRF, que criaram tal item para estatística interna, a apreensão desses medicamentos nas rodovias federais de Mato Grosso do Sul cresce a cada dia.

 
Aliás, até estudantes de Medicina estão buscando obter lucro com a venda ilícita dos remédios emagrecedores. Assim, no período de férias, folga ou algum feriado, levam a encomenda contrabandeada do Paraguai ao Brasil.

PRF já apreendeu mais de 2,1 mil unidades este ano

No caso da PRF, em 2025, foram apreendidas 5.281 unidades. Já em 2026, apenas nos primeiros dias do ano, 2.160 unidades foram recolhidas, em um total de 20 ocorrências, nos municípios de Campo Grande, Maracaju, Sidrolância, Água Clara, Jardim, Chapadão do Sul, Jaraguari, Ponta Porã, Nova Andradina e Naviraí.

Tais números indicam que, mantido esse ritmo, o volume de apreensões deste ano deverá ultrapassar o total registrado no ano anterior. Segundo o superintendente regional da corporação, João Paulo Pinheiro Bueno, a maior concentração das ocorrências desse tipo de crime é registrada em Dourados e Ponta Porã.

No entanto, por se tratar de um estado de fronteira, as apreensões também são verificadas em outros municípios sul-mato-grossenses, utilizados como rotas de escoamento para diferentes polos do país.

Na maioria dos casos, o transporte desses medicamentos é realizado por pessoas físicas, não por meio de grandes cargas. São situações em que indivíduos atravessam a fronteira, adquirem os produtos com o objetivo de obter lucro e os trazem para comercialização irregular no Brasil.

 
Transporte sem nota fiscal é contrabando, alerta corporação
O transporte de canetas emagrecedoras e outros medicamentos sem nota fiscal configura crime de contrabando/descaminho. Como dito acima, alguns produtos não possuem autorização da Anvisa e, além disso, não há qualquer controle sanitário brasileiro sobre esses medicamentos, o que reforça a ilegalidade da prática.

“A PRF tem intensificado a atuação, de forma mais enérgica e estratégica, no combate a este tipo de crime, que não representa apenas um prejuízo à economia, mas também um grave risco à saúde pública e à segurança da população em geral“, ressaltou o superintendente.

No caso da Polícia Federal, foram apreendidas cerca de 1,1 mil unidades de canetas emagrecedoras, neste início de 2026. Um dos casos, por exemplo, era de uma pessoa que estava com 224 “canetas”. Da mesma forma, a Instituição conta que o item “caneta emagrecedora” foi criado no ano de 2025, sendo que as primeiras apreensões, ainda no ano de 2024, ficavam na classificação de “medicamento humano”.

Sejusp contabiliza mais de 3 mil apreensões de caixas em MS

A Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) ressaltou, recentemente, que as forças de segurança de Mato Grosso do Sul estão mirando as canetas emagrecedoras, justamente por conta do aumento expressivo do transporte irregular, nas rodovias estaduais, de medicamentos utilizados no tratamento da obesidade e do sobrepeso.

Sendo assim, as mercadorias, oriundas do Paraguai, são frequentemente interceptadas durante ações de fiscalização na região de fronteira, por equipes do DOF (Departamento de Operações de Fronteira) e do BPMRv (Batalhão de Polícia Militar Rodoviária).

Ao todo, mais de três mil caixas deste tipo de produto, cada uma contendo, em média, quatro unidades do medicamento, foram apreendidas.

O comandante do DOF, tenente-coronel Wilmar Fernandes, explica que os produtos ilegais costumam ser transportados junto a outras mercadorias, como eletrônicos, perfumes e cigarros, na tentativa de burlar a fiscalização.

“Essas canetas têm sido encontradas em meio a cargas de descaminho e contrabando. Por se tratar de um produto que não possui autorização de importação pelos órgãos reguladores do país, a entrada é considerada crime de contrabando. Conforme previsto em lei, o responsável é autuado, o material é apreendido e encaminhado à Polícia Federal e, posteriormente, à Receita Federal, para os procedimentos legais”, detalhou o comandante.

Uma das ocorrências que chamaram a atenção nesta primeira quinzena de 2026 foi registrada durante uma abordagem realizada por equipes do BPMRv na rodovia MS-386, em Sanga Puitã, distrito de Ponta Porã, na região sul do Estado, quando os policiais localizaram os produtos ocultos no compartimento do estepe de um veículo.

O comandante do BPMRv, tenente-coronel Vinícius de Souza Almeida, destaca que, diante do aumento desse tipo de crime, o batalhão tem reforçado a presença ostensiva e as fiscalizações nas rodovias estaduais, especialmente nos trechos próximos à fronteira. Segundo ele, as ações seguem voltadas tanto à segurança viária quanto ao enfrentamento aos crimes transfronteiriços, o que tem permitido a identificação e a interceptação do transporte irregular de medicamentos.

“Temos percebido que os responsáveis adotam estratégias cada vez mais sofisticadas para tentar ocultar as mercadorias, utilizando compartimentos escondidos e até o estepe dos veículos. Ainda assim, a rotina operacional, a observação atenta durante as abordagens e a experiência das equipes possibilitam a localização desses produtos e a retirada deles de circulação”, afirmou.

Já o secretário-executivo de Segurança Pública, Wagner Ferreira da Silva, reforça que o enfrentamento ao transporte ilegal de canetas emagrecedoras integra uma estratégia mais ampla de combate aos crimes transfronteiriços no Estado.

“As forças de segurança de Mato Grosso do Sul estão atentas a essa nova dinâmica criminosa e atuam de forma integrada para coibir a entrada de produtos ilegais no território estadual. Além de configurar crime, esse tipo de mercadoria representa risco direto à saúde da população quando utilizado sem prescrição médica, o que torna ainda mais necessária a intensificação das ações de fiscalização, especialmente nas regiões de fronteira e nos principais corredores rodoviários”, encerrou.

Graziela Rezende-Midiamax

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