
Mulheres inteligentes, bem-sucedidas, com boa formação e clareza sobre o que querem para a vida. Ainda assim, muitas permanecem presas a relações que ferem, drenam e silenciam. Relações que machucam, mas que, por razões profundas, parecem difíceis demais de abandonar. Foi observando esse padrão repetitivo em atendimentos clínicos que a psicóloga Maria Elisa Lacerda Faria decidiu transformar anos de escuta e análise em um material acessível e profundo: o e-book “Quando você se escolhe – Um guia psicológico para sair de relações que te machucam”, lançado recentemente em Campo Grande.
Com atuação fundamentada na psicanálise de orientação lacaniana e mais de 10 anos de experiência, Maria Elisa afirma que o material nasceu da necessidade de mostrar que permanecer em uma relação adoecedora não é sinônimo de fraqueza, mas resultado de processos psíquicos complexos.
“O que eu vejo com muita frequência eram mulheres extremamente conscientes, inteligentes, bem-sucedidas, mas emocionalmente presas a relações que machucavam. E o mais surpreendente era que, mesmo machucadas, elas enfrentavam uma dificuldade enorme de sair. E isso não era falta de força. Eram processos psíquicos profundos, muitas vezes inconscientes”, explica.
Segundo ela, o e-book foi construído justamente para traduzir aquilo que aparece repetidamente no consultório e ajudar mulheres a reconhecerem seus próprios padrões emocionais.
“Esse e-book traduz tudo o que foi visto no consultório de forma simples. A ideia é ajudar. É fazer com que aquilo que parece confuso se torne nomeável, compreensível e transformável”, destaca.
A violência psicológica é comum e ainda invisível
De acordo com a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do Instituto DataSenado, divulgada em novembro de 2025, 3,7 milhões de mulheres foram vítimas de violência doméstica e familiar em 2025.
O levantamento aponta que 17% das vítimas conviviam com o agressor no momento da entrevista. As agressões também costumam começar cedo: 38% das entrevistadas relataram ter sido agredidas pela primeira vez até os 19 anos.
Outro dado significativo é que 33% das mulheres disseram ter vivenciado ao menos uma das violências apresentadas na pesquisa, mas parte delas não se reconhece como vítima quando questionada diretamente.
Em Mato Grosso do Sul, os números também preocupam. Foram registrados 39 feminicídios em 2025 e 9 casos até o momento em 2026.
Para Maria Elisa, uma das maiores dificuldades está no fato de que muitas mulheres vivem relações que não chegam a ser formalmente classificadas como violência, mas que ainda assim causam sofrimento profundo.
“No Brasil, a violência psicológica é uma das formas mais comuns e menos reconhecidas. Muitas mulheres permanecem anos em relações prejudiciais antes de buscar ajuda e muitas vezes isso chega a situações extremas. O mais importante de destacar é que nem toda relação que machuca é necessariamente classificada como violência formal. Muitas estão numa zona de negligência emocional, ambivalência e dependência afetiva. E isso também gera sofrimento psíquico”, explica.
Ciclos emocionais que aprisionam
Na prática clínica, Maria Elisa relata que há uma predominância significativa de mulheres buscando ajuda por sofrimento emocional nas relações. Segundo ela, fatores culturais contribuem para isso, pois muitas mulheres são ensinadas a sustentar vínculos, mesmo quando isso custa a própria saúde mental.
“As mulheres são incentivadas a sustentar vínculos, a tolerar, a compreender e a dar conta emocionalmente de relações que muitas vezes fazem mal para elas”, analisa.
Entre os padrões mais comuns, ela destaca relações instáveis, marcadas por ciclos repetitivos de término e retorno, negligência afetiva e manipulação emocional. As principais relações que observo são ciclos de término e retorno, negligência afetiva, onde o sentimento da mulher não é levado em conta, manipulação emocional e relações baseadas em promessas de mudança. Muitas ficam presas no potencial do outro, no que ele poderia ser, mas ele não atinge.
Maria Elisa reforça que sair de uma relação que machuca não é apenas um ato de coragem pontual, mas uma reconstrução interna.
“Muitas vezes a mulher permite que o outro invada seus limites. E principalmente, ela precisa resgatar a própria identidade: o que eu gosto? o que eu necessito? o que é importante para mim?”, destaca.
Reconhecer os sinais e buscar ajuda
O estudo também apresenta sinais comuns vividos por quem está presa em relações adoecedoras. Segundo Maria Elisa, raramente existe um único momento de clareza, mas sim um acúmulo de sofrimento.
“Normalmente não há um único momento em que a pessoa nota que precisa de ajuda. Isso acontece num acúmulo de processos e, o maior de todos é quando o medo de ficar sozinha é muito maior do que o sofrimento na relação. Quando a pessoa percebe isso, ela entende que precisa de ajuda”, afirma.

Desconstruindo a romantização do sofrimento
Maria Elisa também alerta para a romantização cultural das relações difíceis, uma narrativa que faz muitas mulheres confundirem amor com dor.
“Existe uma narrativa cultural muito forte de que amar é insistir, suportar, ter paciência e acreditar que o outro vai mudar. E isso é muito perigoso. Relação saudável não é aquela que exige que você se perca para manter o outro”, conclui.
Sobre a autora – Maria Elisa Lacerda Faria é psicóloga clínica, com mestrado e doutorado em Psicologia da Saúde. Possui especializações em Saúde Mental, Psicologia do Trânsito e Psicologia Infantil, além de aperfeiçoamento em Psicologia da Saúde Ocupacional.
Atuou em diferentes contextos profissionais, como clínica, hospitalar, organizacional e acadêmico. Atualmente trabalha com abordagem psicanalítica lacaniana, com foco em relações afetivas, padrões emocionais e processos de autoabandono. Também atua como docente e pesquisadora, com produção científica voltada à saúde mental e fatores psicossociais associados ao adoecimento.











