
A reação de setores da indústria brasileira à nova tarifa de 12,5% anunciada pelos Estados Unidos foi de cautela, com apelo para que o governo federal evite, neste momento, uma resposta baseada na Lei da Reciprocidade Econômica. Representantes da Confederação Nacional da Indústria, a CNI, e da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, a Abimaq, defenderam nesta quinta-feira (23) que o Brasil preserve o canal de negociação com Washington, em vez de adotar medidas imediatas de retaliação.
A nova sobretaxa foi confirmada pelo governo Donald Trump para 60 parceiros comerciais, entre eles o Brasil, sob a justificativa de supostas falhas no combate à importação de produtos feitos com trabalho forçado. A cobrança entra em vigor nesta sexta-feira (24) e pode elevar para até 37,5% a taxação sobre parte das exportações brasileiras, ao se somar à tarifa de 25% já aplicada nesta semana a produtos do país.
Após reunião com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, o presidente da CNI, Ricardo Alban, afirmou que o setor não quer decisões precipitadas que possam agravar o problema. Segundo ele, acionar a Lei da Reciprocidade não significa necessariamente aplicá-la de imediato, já que o processo exige avaliação técnica e cautelosa.
A leitura da indústria é que uma reação automática do Brasil tende a ampliar a tensão comercial sem garantir resultado prático na reversão das tarifas. A defesa feita pelos setores empresariais é de continuidade das conversas com os Estados Unidos, numa tentativa de evitar novo desgaste em uma relação considerada estratégica para a produção industrial brasileira.
A Abimaq adotou posição semelhante. Em nota, a entidade disse não apoiar o uso da Lei da Reciprocidade como resposta à medida norte-americana. Na avaliação do setor de máquinas e equipamentos, a decisão dos Estados Unidos tem motivação predominantemente política, e uma reação por retaliação pode ser pouco eficaz, além de comprometer o diálogo entre os dois países. A associação sustenta que o caminho mais adequado passa pelo fortalecimento da diplomacia governamental e empresarial.
O setor também avalia que a nova tarifa reduz ainda mais a competitividade dos produtos brasileiros no mercado norte-americano. Segundo o presidente da Abimaq, José Velloso, a expectativa é de piora no desempenho das exportações de máquinas e equipamentos para os Estados Unidos, com estimativa de queda entre 10% e 11%.
Conforme publicao no site A Crítica, a preocupação da indústria se soma ao impacto já calculado pela CNI para a rodada anterior de tarifas. Levantamento divulgado pela entidade mostra que o tarifaço dos Estados Unidos pode atingir US$ 11 bilhões em exportações brasileiras, o equivalente a 26,2% do total enviado ao mercado norte-americano. Segundo a confederação, a medida compromete a competitividade da indústria nacional em um dos seus principais destinos de exportação.
Além do impacto financeiro, a CNI destacou que 60,3% das exportações atingidas correspondem a bens intermediários usados pela própria indústria dos Estados Unidos, o que, na prática, amplia a pressão sobre cadeias produtivas dos dois lados. No caso de máquinas e equipamentos, o setor já aparecia entre os afetados pela rodada anterior, com sobretaxa de 12,5% sobre parte dos itens exportados.
A posição defendida por indústria e fabricantes de máquinas contrasta com a reação do governo brasileiro, que classificou a nova tarifa como arbitrária e injustificada e informou que pretende recorrer à Lei da Reciprocidade e à Organização Mundial do Comércio. Para os setores ouvidos, porém, o momento exige negociação e cuidado para que a resposta brasileira não produza novos prejuízos sobre exportações, investimentos e previsibilidade comercial.











