
O padre João Crippa, missionário italiano que deixou sua marca na formação religiosa, educacional e social de Campo Grande, poderá se tornar o primeiro santo ligado à história de Mato Grosso do Sul. A Arquidiocese de Campo Grande abriu, na terça-feira (20), o inquérito diocesano para investigar a vida, as virtudes e a reputação de santidade do sacerdote, falecido em 1941.
Conhecido atualmente por dar nome a uma das ruas da região central da Capital, Crippa teve participação importante na criação de instituições religiosas e educacionais que acompanharam o crescimento de Campo Grande, quando o município ainda pertencia ao antigo estado de Mato Grosso.
A abertura da investigação representa o início da fase diocesana do processo que poderá resultar na beatificação e, posteriormente, na canonização do religioso pela Igreja Católica. O reconhecimento, entretanto, depende de outras etapas e de análises conduzidas pelo Vaticano.
Missionário participou da criação de escolas e instituições religiosas
Nascido na Itália, João Crippa ingressou na Congregação Salesiana, fundada por São João Bosco, de quem foi discípulo. Sua trajetória missionária na América do Sul começou pelo Uruguai, antes de sua chegada ao território que atualmente corresponde a Mato Grosso do Sul.
Em Campo Grande, o sacerdote participou da criação da Paróquia São José e do Oratório São José, instituições dedicadas à evangelização e à formação de crianças e jovens.
Também atuou na mobilização de recursos e benfeitores para a construção do Colégio Salesiano Dom Bosco, além de participar da fundação do Colégio Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora.
A atuação de Crippa contribuiu para a expansão da educação confessional na cidade, em um período marcado pela formação de instituições que se tornariam referências na história da Capital.
Trabalho social alcançou indígenas, detentos e famílias vulneráveis
As atividades do missionário não ficaram restritas às celebrações religiosas e ao ensino.
Crippa também desenvolveu ações de assistência voltadas a povos indígenas, pessoas em situação de vulnerabilidade social e detentos, buscando atender necessidades de grupos que enfrentavam dificuldades de acesso a serviços e apoio institucional.
Na área da saúde, colaborou para a organização da Santa Casa de Campo Grande como associação, participando de iniciativas relacionadas à estruturação da assistência hospitalar no município.
Seu trabalho o aproximou de personagens importantes da política regional, entre eles Dom Aquino Corrêa, que governou Mato Grosso, e o senador Pedro Celestino.
A participação do sacerdote nessas diferentes áreas fez com que sua trajetória ultrapassasse o ambiente religioso e passasse a integrar a memória histórica de Campo Grande.
Restos mortais foram transferidos para Campo Grande em 1951
O padre João Crippa morreu em Três Lagoas, em 1941. Dez anos depois, em 1951, seus restos mortais foram transferidos para Campo Grande, atendendo a um pedido de moradores que desejavam manter sua memória na cidade onde havia desenvolvido parte de sua missão.
Atualmente, o religioso está sepultado na Paróquia São José, localizada na região central da Capital.
O túmulo recebe visitas de fiéis que deixam cartas, pedidos de oração e relatos de graças que atribuem à intercessão do sacerdote. Esses testemunhos fazem parte da devoção popular e poderão ser examinados durante a investigação religiosa.
O reconhecimento público também se refletiu na denominação de uma importante via da cidade. Como homenagem póstuma, o então prefeito Ari Coelho alterou o nome da antiga Rua da Constituição, que passou a se chamar Rua Padre João Crippa.
Vaticano autorizou abertura do processo de beatificação
A investigação recebeu autorização da Santa Sé por meio do documento denominado Nihil Obstat, expressão em latim que significa “nada impede”.
Com essa autorização, João Crippa passou a ser reconhecido oficialmente como Servo de Deus, título utilizado pela Igreja Católica para pessoas cuja causa de beatificação foi iniciada.
Os preparativos começaram aproximadamente três anos antes da abertura do inquérito, com a formação de uma comissão responsável por reunir documentos históricos, informações biográficas e elementos necessários à apresentação do pedido ao Vaticano.
O processo conta com a participação do postulador italiano Paolo Vilotta, que também trabalhou na causa de canonização de Santa Dulce dos Pobres, religiosa brasileira reconhecida pela Igreja Católica.
Durante a fase diocesana, serão reunidos documentos, depoimentos e registros relacionados à vida do sacerdote. A investigação buscará identificar elementos que sustentem sua reputação de santidade e o exercício das virtudes cristãs.
Também poderão ser analisados relatos de possíveis graças atribuídas à sua intercessão, incluindo testemunhos apresentados por devotos que visitam seu túmulo.
Entenda o caminho até a canonização
O reconhecimento oficial de um santo pela Igreja Católica envolve diferentes etapas, conduzidas inicialmente pela diocese responsável e posteriormente pela Santa Sé.
No caso de João Crippa, o procedimento seguirá as regras estabelecidas para as causas de beatificação e canonização.
As principais etapas são:
- Servo de Deus: título concedido após a abertura formal da causa, permitindo a investigação sobre a vida e as virtudes do candidato.
- Venerável: reconhecimento, pelo papa, de que a pessoa viveu as virtudes cristãs em grau heroico.
- Beato: reconhecimento que, em regra, exige a comprovação de um milagre atribuído à intercessão do candidato.
- Santo: canonização que normalmente depende do reconhecimento de outro milagre ocorrido após a beatificação.
Após a conclusão do inquérito em Campo Grande, a documentação será encaminhada ao Vaticano, onde passará por novas avaliações.
A abertura da causa não significa que a Igreja já tenha reconhecido milagres ou confirmado a santidade do sacerdote. O procedimento poderá levar anos e não possui prazo definido para conclusão.
Para Campo Grande e Mato Grosso do Sul, a investigação também representa uma oportunidade de recuperar documentos e testemunhos sobre um personagem que participou da formação religiosa, educacional e social da região.
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Caso todas as etapas sejam concluídas e a canonização seja aprovada pela Igreja Católica, João Crippa poderá se tornar o primeiro santo reconhecido por sua trajetória histórica em Mato Grosso do Sul.











