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Voto feminino será o mais decisivo das eleições, diz cientista política

Foto ilustrativa

Cerca de 50 pesquisas sobre a corrida eleitoral de 2026 saem todas as semanas, e um recorte tem chamado a atenção dos estrategistas de campanha: a diferença no comportamento entre eleitores homens e mulheres. Mais do que uma fotografia momentânea, esta percepção já indica uma tendência que deve influenciar os rumos dos discursos políticos e composições de chapa nos próximos meses.

O levantamento Genial/Quaest divulgado na última quarta-feira, 10, mostra que 41% das brasileiras declaram intenção de voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), contra 24% que votariam no senador Flávio Bolsonaro (PL).

Já entre os homens, a distância é menor, com 37% das intenções de voto em Lula e 34% em Flávio, e índices ligeiramente maiores do que o voto feminino em outros candidatos, todos de centro-direita. Resultados semelhantes se repetem em todas as pesquisas presidenciais, regionais ou gerais.

Para a cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a diferença é “crucial” e ajuda a explicar parte da dinâmica eleitoral deste ano.

Segundo ela, os números refletem o chamado “hiato de gênero”, fenômeno sociocultural recente, que tem se refletido no comportamento eleitoral distinto entre homens e mulheres.

“O Brasil acompanha essa tendência global. O distanciamento no voto de homens e mulheres não é apenas numérico; ele traduz visões de mundo divergentes”, afirmou à EXAME.

A especialista avalia que essa clivagem dialoga com transformações sociais mais amplas. Enquanto parte das mulheres tende a posições mais progressistas, o eleitorado masculino, especialmente entre os mais jovens, tem se deslocado para posições mais conservadoras.

Esse cenário ajuda a explicar por que o eleitorado feminino tornou-se um dos ativos mais valiosos para todas as campanhas eleitorais.

De acordo com a pesquisadora, além de representar a maioria dos cidadãos votantes, cerca de 82 milhões de eleitoras, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as mulheres exercem papel estratégico na definição dos limites de crescimento dos candidatos.

“Hoje, o voto feminino é o ativo mais valioso e disputado de qualquer campanha eleitoral moderna”, disse Braga. “As mulheres são maioria do eleitorado, costumam tomar decisões de forma mais autônoma e ajudam a definir o teto de rejeição dos candidatos.”

A disputa pelo voto feminino

A importância desse eleitorado também tem provocado mudanças na forma como partidos e candidatos estruturam suas campanhas.

A escolha de mulheres para cargos de destaque, a criação de agendas voltadas para segurança, renda e cuidados familiares e o fortalecimento da comunicação direcionada às eleitoras tendem a ganhar ainda mais espaço ao longo da disputa.

A pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL), por exemplo, discute a possibilidade de uma mulher ocupar a posição de vice na chapa.

Do lado progressista, a esquerda tem costurado uma chapa na disputa no estado de São Paulo com duas mulheres no Senado, as ex-ministras Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede).

Embora partidos de esquerda e centro-esquerda ainda liderem proporcionalmente o lançamento de candidaturas femininas, o espectro conservador tem ampliado os investimentos em lideranças competitivas, segundo Sousa Braga.

“O crescimento das mulheres conservadoras decorre de uma estratégia para capturar o voto feminino moderado e reverter a alta rejeição da direita entre as mulheres”, afirmou.

A ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro (PL), presidente do PL Mulher e pré-candidata ao Senado no Distrito Federal, é uma das figuras que têm fortalecido a criação de lideranças femininas no campo conservador em todo o país.

O resultado é uma disputa mais acirrada por um eleitorado que pode ser decisivo em 2026.

Apesar de os olhares estarem voltados ao eleitorado feminino, Braga ressalta que o crescimento da presença de mulheres nas campanhas não significa que a representação política feminina tenha alcançado níveis satisfatórios.

Na avaliação dela, o sistema eleitoral avançou na fiscalização das cotas e na distribuição de recursos, mas o país ainda enfrenta dificuldades para transformar esses mecanismos em maior presença feminina nos cargos mais altos.

“Embora o arcabouço jurídico e as campanhas institucionais tenham avançado, o Brasil ocupa uma incômoda 139ª posição no ranking global de mulheres no parlamento”, afirmou. “Isso evidencia que a inclusão ocorre em ritmos diferentes, a depender do espaço disputado.”

Revista Exame

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